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Extensão, Residência e Athis são centros de debate para futuro acadêmico da AeU

Letícia Breda / Imprensa FNA

O Arquiteto e Urbanista é um curioso por natureza, muito observador, investigativo e criativo. É assim que a professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (USP) Maria Lucia Refinetti Martins define os profissionais que atuam nesta área. Envolvida há décadas com os projetos práticos voltados aos estudantes na instituição, Maria Lucia (Malu) construiu uma trajetória acadêmica que contempla três temas importantes no curso: Extensão, Residência e Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (Athis)

Há mais de 20 anos na docência, a professora viveu inúmeras transformações na Arquitetura e Urbanismo, como a inclusão de novos conteúdos no currículo, a criação de projetos socioassistenciais no âmbito federal e a chegada do ensino remoto, que modificou a rotina das universidades em 2020. Para Malu, o curso de Arquitetura e Urbanismo deve tornar-se cada vez mais realista às demandas da sociedade. “Estamos vivendo o já designado Antropoceno, onde os humanos são a espécie predominante. E a maior parte da espécie vive em cidades. A desigualdade e as condições de vida nas cidades, as mudanças climáticas e os impactos do aquecimento são certamente a grande questão do futuro”, analisa.

Confira a entrevista completa com a arquiteta e urbanista:

Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA) – Quais são as tendências no currículo de Arquitetura e Urbanismo no Brasil? O que podemos esperar para os próximos anos?

Maria Lucia Refinetti Martins – Acredito que a visão sobre a profissão está mudando em favor de uma atuação mais pública, voltada à sociedade de maneira mais ampla e despretensiosa, na busca de ampliar conforto e qualidade de vida nos espaços públicos e privados. Assim, o curso e a profissão são desafiados a dar maior ênfase à prática e a dar respostas às necessidades da maioria da sociedade. Nesse campo avalio que há três temas que se entrelaçam: Extensão, Residência e Athis. Tentaremos neste diálogo, refletir um pouco sobre eles. Relativamente à Extensão (um dos elementos do tripé da formação universitária ao lado do ensino e da pesquisa), há a resolução nº 7, de 18 de dezembro de 2018, da Câmara de Educação Superior do MEC, que determina para todos os cursos universitários a curricularização das atividades de extensão. Essas devem representar 10% da carga horária total dos cursos. Caberá aos cursos de Arquitetura e Urbanismo discutir tanto a natureza da extensão quanto sua articulação ou sobreposição ao estágio obrigatório, que atualmente pode ser cumprido em qualquer área da abrangência profissional, desde que supervisionado por profissional formado e habilitado. Desse modo, entre estágio e extensão, o curso deverá se tornar cada vez mais realista frente às demandas da sociedade, num contexto em que a urbanização de mais de 80% da população do país, a desigualdade e as fortes tensões ambientais são o grande desafio.

FNA – Como a assistência técnica ganha espaço nessas mudanças que estão chegando?

Maria Lucia – A Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (Athis) é uma proposta concebida na década de 70. Desde suas primeiras formulações até hoje vivemos 50 anos de profundas transformações nas cidades e na sociedade brasileira. Passamos, no conjunto da sociedade, de um contexto de trabalho assalariado com baixa remuneração à ampliação do trabalho informal, particularmente no setor de serviços, sujeito a ganhos intermitentes. Em termos de assentamento popular ao loteamento precário e autoconstrução individual, que expressa a explosão do crescimento urbano até as últimas décadas do século XX, foi acrescentado grande crescimento de favelas e sua verticalização, assim como ocupações de áreas e de imóveis sem uso. Importantes movimentos de moradia se organizaram no período e promoveram alternativas coletivas e autogeridas de promoção da moradia.

Assim, a Athis passa de um conceito inicial de atuação na qualificação das moradias, num padrão que poderia ser autônomo (motivador da lei nº 11.888/2008 – direito à assistência técnica pública e gratuita, quando de sua proposição original, em 2002), para o envolvimento em projetos maiores, coletivos e que, na maioria das vezes, inclui questões de posse da terra, regularização, questões jurídicas e de busca e gestão de financiamento. A inclusão da Função Social da Propriedade no texto constitucional propiciou importante abertura para ampliação do acesso a espaços na cidade e para o trabalho dos arquitetos nesses espaços. A linha “Entidades”, dentro do Programa Minha Casa Minha Vida, apesar de seus reduzidos recursos, também propiciou importante trabalho de assessoria a movimentos, desde a preparação de propostas para inclusão no programa até projeto e desenvolvimento das obras. Nossas entidades FNA, IAB e CAU são cada vez mais sensíveis ao tema da extensão, particularmente a Athis. A FNA vem há anos trabalhando fortemente nesse tema, promovendo seminários e publicações, o IAB também o tem recentemente pautado e o CAU, desde 2017, destina 2% de seus orçamentos anuais para financiar iniciativas de assistência técnica em habitação social.

FNA – Além da assistência técnica, quais outros temas que envolvem a realidade brasileira precisam ser inseridos de forma permanente no currículo?

Malu – Questão ambiental e infraestrutura. Estamos vivendo o já designado Antropoceno, onde os humanos são a espécie predominante. E a maior parte da espécie vive em cidades. As mudanças climáticas e os impactos do aquecimento são certamente uma grande questão. Mas no campo da formação dos Arquitetos e Urbanistas é particularmente a cidade que requer atenção, onde questões que formatam o meio ambiente urbano, como saneamento e drenagem, transporte público com menor emissão de carbono e a maneira como essas redes se articulam no espaço urbano com as edificações, são fundamentais. Também entram nessa lista a eficiência energética das edificações e redução das ilhas de calor.

FNA – Os projetos de extensão vêm ampliando seu espaço na Arquitetura e Urbanismo? O que o futuro reserva para essas iniciativas?

Malu – Seguramente. O interesse pela extensão se amplia entre os estudantes, inclusive por meio de coletivos autônomos de iniciativa dos próprios discentes. Temos também, desde o final de 2018, a resolução do MEC acima mencionada, que insere nos currículos créditos em extensão. E a ANPARQ instituiu neste ano o Prêmio de Projetos de Extensão, ao lado dos demais prêmios que contemplam aspectos acadêmicos como Teses, Dissertações e Livros. Trata-se de um incentivo muito potente, defendido pela colega Ângela Gordilho, atual presidente da ANPARQ. A partir do convite dela e da coordenadora dos prêmios 2020, Angélica Benatti Alvim, tive oportunidade de coordenar, junto com Dulce Bentes, a estruturação dos termos do prêmio e as avaliações, cujo resultado será ainda apreciado pela diretoria e divulgado no ENANPARQ, em março. E haverá uma exposição online de todos os trabalhos submetidos. Contando com uma comissão muito comprometida com o tema, foi possível observar entre o conjunto de trabalhos submetidos, a diversidade de entendimentos e de tipos de atividades desenvolvidas nos cursos de Arquitetura e Urbanismo enquanto atividades de extensão. Acredito que a premiação ajudará a construir um perfil e abrangência para essa atividade.

FNA – Como você avalia os programas de residência em Arquitetura e Urbanismo? Considera uma experiência positiva ou negativa? Por quê?

Malu – Estão sendo feitas algumas experiências, mas são ainda um “engatinhar”. Se de um lado são fundamentais para uma formação mais envolvida com a realidade da maioria da população, que não tem acesso aos serviços do Arquiteto e Urbanista, estão longe de configurar uma perspectiva de serviço universal. Representam um importante caminho. Mas o setor social não funciona sem um Estado organizado que atue e regule. Nas áreas da saúde, a residência é parte da política pública e os residentes são simultaneamente alunos em formação, mas também executores da política pública. A residência nas áreas de saúde envolve os Ministérios da Educação e da Saúde e atravessa os diversos níveis de governo e universidades em relação à forma de promoção e de controle. O conselho profissional reconhece e registra a residência. São habilitações. Participo há vários anos da comissão que aprecia as residências na USP e vejo a complexidade do que temos a desenvolver se queremos de fato qualificar o ambiente construído para todos.

Desde os anos 80, em que trabalhei com médicos sanitaristas, tenho essa área como referência. Os sanitaristas construíram uma carreira e criaram espaço dentro do estado brasileiro para promoção da saúde pública (basicamente puericultura, nutrição e vacinação), o que os arquitetos nunca conseguiram – ou para ser sincera, nunca de fato se propuseram. O sanitarismo partiu de um conceito de política pública considerando a estrutura federativa e níveis de complexidade da atuação. Construíram a lógica do SUS e um dos sistemas de imunização mais universais e eficazes no mundo. Tanto que sobrevive num contexto de ataques e desqualificações que vêm sofrendo com sutilezas perversas. Saúde Pública é medicina voltada ao coletivo, não aos indivíduos, como a Arquitetura e Urbanismo poderia ser. A residência pode ser um caminho para tanto.

FNA – A pandemia fragilizou o ensino presencial? Acredita ser possível adaptar o curso de Arquitetura e Urbanismo para um regime totalmente em EAD? O que se perde ou ganha nesse processo?

Malu – Primeiro é necessário deixar claro que o que exercemos durante a pandemia foi um ensino não presencial, mas sincrônico. As aulas eram online, mas o professor e os alunos estavam lá, dialogando. EAD é outra coisa, tem metodologia e procedimentos muito diferentes e principalmente quanto as formas de avaliação. Cursei alguns, para entender o funcionamento. Considero impensável um curso universitário integralmente EAD. O diálogo, o amadurecimento e a contestação são elementos fundamentais na formação universitária, que certamente não se constroem à distância. Mas o EAD veio para ficar? Sem dúvida, e em alguns aspectos é da maior relevância. Por exemplo a área de agricultura e pecuária tem cursos importantíssimos para o pequeno agricultor que está lá no Brasil profundo com difícil mobilidade. São cursos de difusão e atualização da maior importância. Tenho certeza de que os arquitetos e urbanistas têm muito a promover em condições equivalentes.

FNA – Como você avalia a possível fragilidade acadêmica de alunos formandos que precisaram se adaptar ao ensino a distância no final do curso?

Malu -Venho dando aula para os anos finais do curso: 8º semestre e trabalho de formatura (TFG). Claro que foi penoso, mas para esses alunos que já conheciam bem seus colegas, os professores, o formato do curso e os métodos de ensino, e que nessa etapa já têm habilidade com o computador, programas específicos, funcionamento de redes e compartilhamento de arquivos, não foi um drama. Tomamos alguns cuidados e a universidade deu suporte, disponibilizando pacotes de acesso à internet aos que expressaram dificuldades. Reprogramamos disciplinas, adequamos conteúdo para aulas mais curtas e mais tempo de trabalho e dividimos turmas, para um diálogo em grupos menores, mais individualizado. Funcionou, os alunos expressaram isso e houve trabalhos muito bons. Mas quem sofreu muito foram os anos iniciais, particularmente o primeiro ano, com depoimentos desesperados. Foi infinitamente mais sofrido. Inviável inserir os recém chegados num ambiente em que a imersão na “cultura” da Arquitetura e Urbanismo é parte essencial da formação.

FNA – Na sua percepção, o que os formandos almejam quando deixam a faculdade? Saem pensando em trabalhar em grandes projetos? Ou estão mais voltados à realidade da sua região e da sua comunidade?

Malu – Creio que os interesses e propósitos são muito diversificados, mas vejo um desejo de manter vínculos com o aprendizado e com a atualização. Sinto pequena motivação em trabalhar em grandes projetos, que vêm de uma matriz internacional, onde o que cabe ao arquiteto local é apenas aplicar ao terreno os formatos, modelos e especificações que já vem prontos. Não há lugar para autonomia e criatividade. A maioria acaba buscando instituições locais, redes de conhecidos ou o setor público, diretamente ou como prestadores de serviços, e quase todos almejam as áreas novas que estão surgindo.

FNA – Qual leitura você indica para quem deseja refletir mais sobre o futuro e tendências do curso de Arquitetura e Urbanismo?

Malu – O Arquiteto Urbanista é um curioso por natureza, muito observador e investigativo. Os encontros de nossas associações têm recebido muitos trabalhos sobre o tema. A ANPUR tem alguns livros publicados, a Residência da FAU-USP produziu um livro que relata a experiência – tudo disponível online, a Residência da UFBA tem um bom site e a ANPARQ, em seu próximo encontro em março, apresentará uma exposição de parte dos 35 projetos que concorreram ao Prêmio de Projetos de Extensão e dos três projetos institucionais que não concorreram: UFBA, UFRN e FAUUSP. Foi justamente da experiência dessas unidades e da participação de docentes envolvidos nessas experiências que se formataram os critérios para o prêmio. Diversos programas de Arquitetura e Urbanismo têm relevantes experiências de extensão. Vale à pena dar uma olhada. Deixo aqui uma lista.

Livros Anpur: http://anpur.org.br/publicacoes/livros/
Prêmios ANPARQ: http://anparq.org.br/PREMIO_ANPARQ%202020_Edital.pdf
Residência FAUUSP: https://www.fau.usp.br/cultura-e-extensao/residencia/
Site Residência UFBA: https://residencia-aue.ufba.br/
Motyrum Urbano – UFRN: https://m.facebook.com/motyrumurbano/
FNA: http://www.fna.org.br/2019/07/11/assistencia-tecnica-um-direito-de-todos-2/

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