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Julieta Abraão, uma ativista que põe a mão na massa

Empreendimento de Habitação de Interesse Social, o Condomínio da Rua do Barra do Jacaré, na capital paulista, tem muito do suor da ativista Julieta Aparecida Abraão, uma mulher de 55 anos, quatro filhos, um neto e muita vontade de transformar vidas. O projeto, como ela mesma diz, consumiu praticamente todo os últimos anos de seu trabalho para ver nascer e acompanhar a ocupação dos apartamentos por 592 famílias em 23 de novembro de 2019. A data é marcante, pois os moradores conseguiram entrar em suas casas antes mesmo da assinatura do contrato pela Caixa. “Entre a finalização da obra até a parte da legalização é muito tempo. Lembro quando foi assinado o contrato de início da obra avisei que quando estivesse 100% concluída as famílias iriam entrar. Não ia deixar ninguém invadir o que as famílias demoraram anos para ocupar”, disse, na época, ao pessoal do banco.

A conquista veio depois de muita luta dos integrantes dos movimentos dos quais está engajada: é coordenadora nacional da Central dos Movimentos Populares (CMP-SP), ligado à União dos Movimentos de Moradia de São Paulo (UMM-SP), e uma das líderes do Movimento dos Moradores da Zona Oeste e Noroeste da capital, este que ‘revelou’ a ativista Julieta, ainda na década de 1990.

Na época com três crianças, morando de aluguel em uma casa nos fundos de um terreno com outras nove casas, a vida era muito difícil, onde praticamente todo o recurso que entrava era para pagar a moradia. “Iniciei minha luta por moradia por uma necessidade própria, mas muito antes de eu conquistar a minha própria casa, centenas de famílias tiveram a sua pelo trabalho de articulação, mutirão e engajamento”, afirma. O empurrão para a causa veio de freiras que comandavam uma creche que seus filhos frequentavam. “Ou vocês levantam da cadeira e lutam para conseguir as coisas ou ninguém vai dar nada para vocês”, repete a frase de uma das religiosas. Ela, assim como os pais de outras crianças, saiu de lá motivada. Juntos com as freiras foi montado um grupo para buscar áreas possíveis de ocupação. Foi difícil, não tinham experiência e muito menos contatos de pessoas certas que poderiam ajudar.

“Descobrimos o movimento da zona oeste e permanecemos briga até sair a regularização de um terreno e os 256 apartamentos em um empreendimento localizado no Jaraguá. Mas eu não entrei de imediato, só consegui ocupar em 1999”, recorda. O empreendimento, pelo perfil da habitação, destoa da realidade atual. São habitações de 64 metros quadrados onde uma parte das famílias foi beneficiada diretamente pelo movimento popular e outra por programa de financiamento do governo.

Além da luta nas ruas, do engajamento de base e da parte administrativa do movimento, Julieta está envolvida diretamente na administração de condomínios, uma forma de autogestão que nasceu dentro do movimento recentemente. A nação se deu até como uma forma de estar presente no pós-ocupação, além de reduzir custos dos moradores com a contratação do serviço por terceiros. Por enquanto o projeto condominial está sendo feito apenas no empreendimento Barra do Jacaré, que já vem colhendo os frutos da autogestão: os funcionários são os próprios moradores, que mesmo sem experiência em funções específicas, são motivados ao trabalho. “Ao longo desse tempo todo de luta no movimento fizemos 35 projetos de mutirão e vimos que em todos eles não havia uma continuidade no acompanhamento das famílias. Foi assim que nasceu essa ideia’, pontua.

Julieta, dona de casa, mãe, avó e referência por anda passa – respeitada até mesmo pelos trabalhadores das obras que acompanha de perto e mete a mão na massa – tem muito orgulho de sua trajetória e de ter conseguido criar quatro filhos paralelo à militância. “A gente consegue ser mulher de movimento e de luta e ao mesmo tempo criar os filhos e ainda abraçar os netos”, garante.

Foto: Julio Cesar Abraão

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