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Paolo Colosso: direito à cidade é abertura profunda à coletividade

Professor da Universidade Federal de Santa Catarina, onde coordena o Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo e parte da coordenação nacional do Projeto Brasil Cidades (BrCidades), Paolo Colosso formou-se em arquitetura e urbanismo na PUC-Campinas em 2006 e emendou uma graduação em filosofia na Unicamp, concluída em 2012.

A inspiração parece ter vindo de dentro de casa. A mãe foi secretária de Planejamento da cidade de Itapira, no interior de São Paulo, onde Paolo nasceu. “Ela me levava junto para o trabalho bastante. Sempre conseguiu combinar ânimo expansivo, respeito pela coisa pública e atenção com necessidades sociais”, relembra.

Com uma paixão renovada pelo urbanismo a partir das manifestações de 2013, Paolo se envolveu com o conceito de “direito à cidade”, que combate desigualdades e injustiças na divisão do espaço urbano e seu uso pelas pessoas. “Amplas parcelas da população vivem em condições sub-humanas, sem condições de se higienizar adequadamente, de se isolarem num teto digno”, pontua.

Essas situações acontecem, na visão de Paolo, porque as cidades, pelo menos as grandes, são como um “camarote VIP”. “Só entra e permanece quem pode pagar, há um sobrepreço em todos os produtos disponíveis e, do ponto de vista da paisagem cultural, há uma homogeneização no aburguesamento. O direito à cidade significa uma abertura profunda dos bens e recursos sociais a toda a coletividade urbana, de modo que todas e todos possam se desenvolver plenamente.”

Essa consciência aguda da realidade fez com que Paolo, junto a outros profissionais, criasse o Projeto Brasil Cidades (BrCidades). O objetivo é “fortalecer e ampliar uma rede nacional de atores compromissados com a transformação social e a vida cotidiana nas cidades”. O BrCidades está coordenando a articulação pela realização de um Encontro Nacional pelo Direito à Cidade, previsto para o primeiro semestre de 2022.

Nesta entrevista para o Entre Pontos de Vista, Paolo também fala sobre a importância de se oferecer uma rede de atuação para arquitetos e urbanistas, e o papel que entidades de classe como sindicatos e associações, têm para fortalecer esses laços. “Sozinho em sua atuação cotidiana, não raro se cai numa descrença e desesperança.  Aí está a importância de nossas entidades: elas são um espaço em que podemos encontrar suporte, reforçarmo-nos reciprocamente e, assim, voltar a visualizar saídas”, conclui.

Confira aqui a entrevista na íntegra:

Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA) – Paolo, como você escolheu a Arquitetura e Urbanismo como profissão? Como você despertou para a área?

Paolo Colosso – Esse “despertar” se deu em momentos diversos. Em alguma medida as questões urbanas permearam minha infância, minha mãe foi Secretária de Planejamento da pequena cidade onde nasci, me levava bastante junto para o trabalho. Ela sempre conseguiu combinar ânimo expansivo, respeito pela coisa pública e atenção com necessidades sociais; foi uma figura importante para inspirar a decisão. A adolescência foi turbulenta, queria cursar História, mas acabei entrando em Arquitetura bem cedo, com 17, ainda muito inquieto. Odiava fazer maquetes, mas me achei em urbanismo, suas relações com os estudos sociais e com os projetos de extensão. Terminada a graduação, fui trabalhar com arquitetura popular e ao mesmo tempo fazer outra graduação, agora em Filosofia. Nas pesquisas, construí relações entre esses campos, mas minha paixão pelo urbanismo reacendeu com as mobilizações dos anos 2013 a 2018 em São Paulo, quando movimentos de juventude urbana absorveram a pauta da mobilidade, os movimentos de sem-teto, o midiativismo, o cicloativismo, os coletivos em defesa de espaços públicos verdes, os feminismos e antirracistas, que criaram um caldo de cultura contestatória e participativa densa, expansiva e irreverente, com uma linguagem nova e inventiva. Foi nesse período que a ideia de direito à cidade retornou com vigor renovado, os espaços urbanos eram cotidianamente reapropriados. A cidade se tornou parte do repertório de luta e da gramática dos movimentos que despontaram naquele período. Descobrimos formas mais urbanas de constituir classe. A tese de doutorado foi sobre essas experiências que marcaram uma geração e o projeto BrCidades está bastante conectado com isso.

FNA – Como você resume sua atuação no BrCidades? Qual é o objetivo dessa causa?

Paolo – O objetivo do BrCidades é fortalecer e ampliar uma rede nacional de atores compromissados com a transformação social desde a vida cotidiana. Ou dito de outro modo, é uma aposta de construir avanços do direito à cidade, da educação urbana, a partir de arranjos na sociedade. Sobre minha atuação no BrCidades, a coordenação é mão na massa, a gente faz de tudo um pouco, mas sempre com o intuito de conectar movimentos, universidades e entidades, abrir diálogos e espaços de confluência. Em termos concretos, fiquei responsável por colaborar na sistematização de nossa agenda de consensos mínimos, o que exigiu muitos debates com essas forças.  Mas também sempre me envolvo na organização de ações de “agitprop”, agitação cultural e comunicação. Nesse momento, combino militância e trabalho para tornar a nossa formação em arquitetura e urbanismo mais popular e inclusiva, o que exige pensar formas de ensino que sensibilizem as pesquisas com incidência na sociedade. Construo conexões mais orgânicas entre pautas do BrCidades e universidades, em especial a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), onde leciono. Contribuo também — e nesse momento é uma tarefa prioritária de todos do BrCidades — para construir o Encontro da sociedade pelo direito à cidade em 2022.

FNA – Qual é, no seu ver, a principal diferença entre as grandes cidades do Sul Global e as do Hemisfério Norte no tocante à inclusão?

Paolo – A pandemia escancarou mais uma vez que nossas grandes cidades combinam modernização e barbárie. São um entroncamento de infraestruturas físicas e comunicacionais, altamente conectadas globalmente, mas amplas parcelas da população vivem em condições sub-humanas, sem condições de se higienizar adequadamente, de se isolarem num teto digno. As pessoas que se submetem a trabalhos precários também sofrem com o transporte ineficiente. Há uma distribuição profundamente desigual dos ônus e dos bônus coletivamente produzidos. As grandes cidades do hemisfério norte também têm problemas, mas, de modo geral, conseguiram criar uma malha de transporte coletivo eficiente, uma rede de espaços públicos valorizados e, no geral, implementar o direito básico à moradia — ainda que, é verdade, as classes trabalhadoras tenham sido segregadas e após a crise econômica global de 2008 também venham sofrendo para conseguir um teto.

FNA – Que evolução a discussão sobre cidades mais inclusivas no Brasil teve nos últimos anos? O que você destacaria que foi realmente implementado e consolidado?

Paolo – Nas últimas décadas vivemos processos contraditórios, com avanços e regressões. Do ponto de vista dos debates, está claro que “política habitacional” pode ser um título e pretexto para políticas econômicas voltadas aos negócios urbanos em nichos populares. Mas ainda nos debates da política habitacional, temos experiências mais avançadas e qualificadas que merecem destaque e valorização. São as que envolvem entidades e autogestão de processos. Elas conseguem prover unidades habitacionais maiores e maior qualidade arquitetônica, os processos participativos criam um tecido associativo que se traduz em vida comunitária e urbana no pós-ocupação. Do ponto de vista da mobilidade urbana, ainda estamos sob a hegemonia do rodoviarismo, mas está claro que este é um modelo que não se sustenta. Há, em segmentos da sociedade e em experiências de gestões locais, o desejo coletivo por transporte coletivo de qualidade e integrado a modais ativos, como o caminhar e a bicicleta. Do mesmo modo, assistimos crescer na sociedade uma sensibilidade e uma série de demandas por espaços verdes, por políticas paritárias em termos étnico-raciais e de gênero.  Essas necessidades ficaram – por motivos óbvios – abafadas no período de isolamento pela pandemia, mas os atores sociais que protagonizam são majoritariamente jovens, isto é, não sabemos exatamente qual agenda vai se consolidar. Temos que ficar atentos a essas forças vivas e às experiências locais. Não podemos esquecer também das lições importantes – e apostar no aprofundamento – do controle e deliberação social sobre o orçamento público.

FNA – O que a expressão “gentrificação” tem a ver com o direito à cidade?

Paolo – Eu costumo dizer que nossas cidades – ou pelo menos as grandes cidades — funcionam como um “camarote VIP”: só entra e permanece quem pode pagar, há um sobrepreço em todos os produtos disponíveis e, do ponto de vista da paisagem cultural, há uma homogeneização no aburguesamento.  A “gentrificação” é um dos fenômenos da cidade camarote. É a “inteligência” do mercado produzindo uma lógica anti-urbana.  Já o direito à cidade, por sua vez, exige dinâmicas no sentido diametralmente oposto, isto é, no sentido da democratização no acesso à terra urbanizada, da ampliação da participação na vida urbana e, sobretudo, nas decisões sobre nosso futuro em comum. Se o camarote é seletivo, fixado no “exclusivo e diferenciado”, o direito à cidade significa uma abertura profunda dos bens e recursos sociais a toda a coletividade urbana, de modo que todas e todos possam se desenvolver plenamente. Nesse sentido, o direito à cidade é suporte para a liberdade, autodeterminação e transformação social.

FNA – O que a própria cidade, a própria rua, nos ensinam sobre arquitetura e urbanismo?

Paolo – A cidade é, a meu ver, a maior expressão da cultura de um dado momento histórico. Nós podemos ler os traços e desafios de uma época a partir do espaço urbano. A rua é, por sua vez, um lugar fundamental para ler o conflito de classes com dimensões étnico-raciais e de gênero. A rua é também o lugar fundamental para perceber espontâneo, o imprevisível, as aberturas fora de controle. Nos momentos de intensificação da vida social, a rua atualiza a experiência coletiva do bem comum.  Por isso a rua é central para entendermos a realidade e suas possibilidades.

FNA – Como você crê que a classe dos arquitetos e urbanistas está ligada ao tema? O engajamento já é grande, poderia ser maior ou é ainda é minoritário? E o que contribui para o quadro atual?

Paolo – A formação em arquitetura e urbanismo é profundamente marcada pelas premissas de que as cidades podem ser lugar para sociedades mais justas, mais democráticas e nós temos um papel ativo nessas dinâmicas. Nesse sentido, é quase inevitável engajar-se nessas construções ou pelo menos se sensibilizar por elas ao longo da formação. No entanto, a realidade da vida profissional de arquitetas (os) e urbanistas tem se tornado mais e mais adversa, extenuante e individualizante. Sozinho em sua atuação cotidiana, não raro se cai numa descrença e desesperança.  Aí está a importância de nossas entidades: elas são um espaço em que podemos encontrar suporte, reforçarmo-nos reciprocamente e, assim, voltar a visualizar saídas.  Por isso também a importância de nossas entidades chegarem nas universidades e na juventude, aquelas (es) que ainda não desistiram nem se adaptaram.

Imagem: Lucas Avancini

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