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Por um país menos segregacionista, mais acolhedor e igualitário

Nascida e criada na periferia de Salvador (BA), a vida de Gilcinéa Barbosa, 51, foi marcada desde o início pela luta em busca da igualdade de direitos. Filha de uma professora de escola pública e um rodoviário, ela foi a primeira da sua família a ingressar na faculdade. O diploma em Arquitetura e Urbanismo veio no ano de 1993, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). No entanto, o caminho até chegar lá foi árduo e o apoio da mãe Maria da Hora Barbosa da Conceição, hoje com 76 anos, foi fundamental nesse processo. Atualmente, a arquiteta e urbanista é especializada em Planejamento Urbano e Gestão de Cidades e opera como servidora pública há mais de 20 anos na Prefeitura Municipal de Salvador.

A paixão pela Arquitetura e Urbanismo nasceu ainda na adolescência. Gil, como é conhecida, herdou um talento especial pelas artes e usava esse dom para ajudar a mãe nas aulas do magistério, ilustrando atividades para os alunos e imprimindo no mimeógrafo. Essas tarefas diárias acenderam na profissional um desejo de seguir numa área onde pudesse exercer funções artísticas, que foram aperfeiçoadas quando ela ingressou no curso de desenho técnico. Na época, para comprar os materiais e equipamentos utilizados na classe, dona Maria precisou abrir um crediário. “Minha mãe sempre foi uma grande incentivadora dos meus estudos e da minha profissão. Por isso, quando ingressei na universidade, busquei estagiar desde o início para conseguir diminuir a demanda financeira da família”, conta.

Contudo, a preocupação com os estudos não foi a única que começou cedo para Gil. Aos 14 anos, ela percebeu as desigualdades sociais e raciais que sua comunidade sofria em relação aos bairros mais centrais de Salvador. Essa inquietação foi responsável por engajar sua primeira participação nos movimentos sociais, que teve seu ‘start’ no grupo União de Mulheres de Itapagipe, que reunia mulheres de 14 bairros da região. Dali em diante, o interesse por pautas ligadas às políticas desse segmento só foram aumentando. Ocupando um lugar de fala como mulher negra e periférica, Gil sempre reparou a falta de paridade racial e de gênero nos espaços que frequentava. Na faculdade, a turma de 40 alunos no curso de Arquitetura e Urbanismo tinha apenas dois estudantes pretos. “Os meus iguais estavam ao meu redor na comunidade, mas quando chegávamos nos ambientes acadêmicos e profissionais eles não estavam mais presentes. Situação que eu jamais aceitei e luto para mudar”, frisa.

O anseio por mudanças seguiu Gil durante sua trajetória profissional. Logo que conquistou seu diploma, a arquiteta e urbanista foi trabalhar na Prefeitura de Camaçari e passou a integrar um grupo socioambiental chamado CAMA – Centro de Arte e Meio Ambiente atuando com articulação social, empreendedorismo e ativismo juvenil. Quatro anos depois, a profissional passou no concurso da Prefeitura de Salvador, onde trabalha até hoje como Subgerente de Projetos Urbanísticos. Foi nos corredores da prefeitura que a luta sindical de Gil iniciou. A primeira delas foi voltada à melhoria salarial da categoria, que em 2006 ganhava menos do que o piso. Em 2008, a então vice-presidente do Sindicato dos Arquitetos e Urbanistas da Bahia (Sinarq-BA), Maria Auxiliadora Machado a convidou para ingressar na chapa do sindicato. Dali em diante, Gil se envolveu cada vez mais nas pautas trabalhistas e participou, inclusive, dos debates que anos depois deram origem à criação do Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU). A presidência do Sinarq-BA veio em 2016 e, de 2018 a 2020, a arquiteta e urbanista assumiu a cabeça do CAU-BA. “Arquitetura e Urbanismo é muito mais do que vemos na televisão. Ainda temos um longo caminho para percorrer, mas é necessário enaltecer nossas vitórias. Nossa categoria está cada vez mais forte e unida, e isso é fruto do nosso trabalho”, pontua.

A participação na Comissão Temporária de Política para a Equidade de Gênero do CAU é um dos momentos marcantes de Gil. A sindicalista elogia o trabalho realizado pelo conselho, que levou às capitais do Brasil um ciclo de debates para elaborar ações que tornem as cidades mais inclusivas para mulheres. Para ela, não existe Arquitetura e Urbanismo sem recorte de classe, raça e gênero.  “Precisamos reconhecer que o racismo existe e é estrutural no nosso país e é necessário ações afirmativas para descontruir isso. As mulheres são invisíveis, mas as mulheres negras são mais ainda. Precisamos nos fazer presente no discurso e na prática, ocupar os espaços e expandir esse debate.”

Foto: Carolina Jardine

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