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Regina Bienenstein: ATHIS para transformar arquitetura em instrumento de luta

Com uma trajetória quase totalmente voltada à habitação social, a professora Regina Bienenstein é uma das pioneiras do país na Assessoria Técnica em Habitação de Interesse Social (ATHIS), área em que atua desde o mestrado na Universidade de Syracuse, nos Estados Unidos, cursado durante os anos 1970.
Uma década antes, nos anos 1960, época em que frequentava os Centros Populares de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE), Bienenstein entrou para o curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) já com um “olhar social”, conta. “Eu comecei a dar aulas de alfabetização para operários, até que estourou o golpe”, relembra.
Hoje, Bienenstein é professora titular do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense (UFF) e coordenadora do Núcleo de Estudos e Projetos Habitacionais e Urbanos (NEPHU-PROEX-UFF). Ela é a vencedora da 16º edição do Prêmio Arquiteto e Urbanista do Ano, concedido pela FNA a profissionais que se destacam por sua atuação voltada ao desenvolvimento da profissão e das cidades brasileiras.
Sua defesa da ATHIS e das regularizações fundiárias se consolidaram após sua volta ao Brasil. “Comecei a trabalhar com planejamento local, participei da equipe do Plano Diretor de Nova Iguaçu, e aí fiz um concurso para entrar como professora colaboradora da UFF. Eu comecei, na disciplina de projeto para habitação popular, trabalhando com meus alunos em assentamentos. Eu também atuava no Instituto de Arquitetos do Brasil, o IAB, e em Niterói havia um projeto que privatizava a Laguna de Itaipu, então a gente começou a abrir o IAB para a discussão pela população. Na verdade era esse o meu foco, a questão da democratização do planejamento e da cidade”, pontua.
A partir daí, diversas comunidades afetadas por obras como as da BR-101, reagiam às ameaças de remoção e buscavam o IAB. “Eu não estava mais lá, mas meus alunos estavam: foi aí que o trabalho do NEPHU foi iniciado”, relata. “Esse era o trabalho que me realizava, que eu achava que tinha sentido: o exercício da responsabilidade social do arquiteto e da própria universidade”.
A professora salienta, porém, que isso “não é trabalho” seu: “é uma coisa que sempre privilegiei, o trabalho coletivo. Isso não existiria se não houvesse equipe, não houvesse movimento. Eu mesma não seria quem sou”, declara.
Bienenstein contabiliza mais de 100 comunidades às quais o NEPHU prestou assessoria, e muitas situações em que alunos e professores presenciaram ações violentas e agressivas de despejo de moradores, como as da Vila Autódromo, em 2016 (foto).

Trabalho coletivo

Apesar das dificuldades e de um planejamento urbano que segue voltado ao conceito de “cidade-mercadoria”, Bienenstein crê que as coisas estão “caminhando” no sentido de uma evolução que tenha uma ótica mais humana.
“A gente tem um trabalho para fazer junto às universidades, principalmente públicas, de colocar a habitação como pauta pública, de colocar a questão urbana de forma crítica e reforçar o movimento popular, porque, em termos de ATHIS, o exercício que tem sentido é transformar o que a gente produz em um instrumento de luta”, enfatiza.
Para a professora, isso não é trabalho de um único arquiteto. “É um trabalho coletivo dos arquitetos, junto com assistente social, com advogados, com geógrafos, engenheiros, e especialmente com a população. É importante frisar isso. É o que eu venho repetindo a todos os meus alunos, sempre, e a toda a comunidade. Temos de estar juntos nessa luta”, conclui.

Imagem: arquivo pessoal de Regina Bienenstein

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